e vós artistas plásticos
almas alucinadas e excêntricas
hipérboles mirabolantes
ó que espirais entediantes
naturezas mortas pincéis de marta
pastéis de nada bordéis da nata
ó tresloucadas cabeças as vossas
que só me apetece chamar-vos
alienígenas terráqueos
batráquios de paleta
pelintras de cavalete
ó azuis do ultramar
ó vermelhões franceses
não me sujeis o chão de tinta
tanta tinta assassinada
estou-me nas tintas para todos
os vangogues pernetas das orelhas
impressionistas impostores
e vós surrealistas sobreruralistas
quem vos chamou? de onde vindes?
dali?
pois voltai para lá
voltai para a realidade
fica-vos tão bem a realidade
ó retratistas impertigados
ó trinchas rabugentas
ó cubistas de cabeça quadrada
ó clubistas do forrete
ó ratazanas bolorentas
que vos tendes como vanguardistas
mas não sois mais do que umas
míseras térmitas de museu
ainda por cima de arte sacra
arte sacra criaturas
irra!
que se me arrepia a espinha
agora vós gentalha do teatro
actores autores contra-regras
seres sem questão
personagens sem carácter
sem cafeína sem corantes
actores pseudofuturistas
detractores em todas as directrizes
malabaristas de Shakespeare
que já nada sois como dantes
nem trágicos nem comediantes
ó marionetes cambaliantes
camaleões comilões de vós próprios
insectos suicidas insecticidas
omeletes vicentinas
ó figurantes fedorentos
ó talentos parcos
tirai-me essas patas do palco
que não me deixais ver o cenário
ó tagarelas histéricos
ó figuras históricas
afónicas histriónicas
ó charlatões acrobáticos trajados
de metáforas de actores
de imitadores da vida
inventores da história
escola de escórias
impostores da memória
que buscais a glória
tarefa inglória
porque ninguém vos quer ouvir ou ver
teatro só se for o da guerra
esse sim que é teatro
mas vós actores e actrizes
vós artroses e varizes
fechai vossas bocas
baixai o pano
ponto parágrafo
que se me arrepia a espinha
irra!
e finalmente tu
abominável público
tu essa estranha forma de vida
a ralé pública
a mó anárquica
a turba
a grande manada
a cornadura humana
tu abdominável público
não penses que te absolves
porque tu não pensas
o público não pensa
existe
o público gosta é de Auchwitz
e não gosta de pintura nem de literatura
mas gosta da filha da vizinha e de ir à bola
e de ir à merda
o público gosta da coisa pública
o público gosta de pêlos púbicos
o público não é pudico
o rubicundo público
o rechonchudo público
boçal
serôdio
ronceiro
bronco
obtuso
irra!
só de pensar nessa massa movediça
dá-se-me um arrepio na espinha